sexta-feira, 31 de maio de 2019

Físico e astrônomo brasileiro Marcelo Gleiser...


Publicado originalmente no site G1 Globo, em 19/03/2019 

Físico e astrônomo brasileiro Marcelo Gleiser é o vencedor do Prêmio Templeton 2019

Por G1

Ele é o primeiro latino-americano a ganhar o prêmio, criado em 1972, e vai receber 1,1 milhão de libras esterlinas, o equivalente a R$ 5,5 milhões. A cerimônia de premiação será em 29 de maio, em Nova York.

"[Ele é] Um dos principais proponentes da visão que ciência, filosofia e espiritualidade são expressões complementares que a humanidade precisa para abraçar o mistério e explorar o desconhecido", diz Heather Templeton Dill, presidente da fundação John Templeton, no vídeo que anuncia o premiado (veja abaixo).

Gleiser tem 60 anos e vive atualmente nos Estados Unidos, onde ensina física e astronomia no Dartmouth College, em Hanover, New Hampshire.

Ele já teve mais de 100 artigos revisados e publicados até o momento e pesquisas sobre o comportamento de campos quânticos e partículas elementares e a formação inicial do universo, a dinâmica das transições de fase, a astrobiologia e as novas medidas fundamentais de entropia e complexidade baseadas em teoria da informação. Agnóstico, seu trabalho se destaca por demonstrar que ciência e religião não são inimigas.

"A compreensão e a exploração científica não é apenas sobre a parte material do mundo. Minha missão é trazer para a ciência e para os interessados na ciência esse apego ao mistério. Fazer o público entender que ciência é apenas mais uma maneira de entendermos quem somos", disse Gleiser no vídeo que anuncia o prêmio.

'A ciência não mata Deus'

"O ateísmo é inconsistente com o método científico", afirmou Gleiser à AFP na segunda-feira no Dartmouth College da Universidade de New Hampshire, onde é professor desde 1991. "Devemos ter a humildade para aceitar que estamos cercados de mistério".

Sobre a teoria religiosa de criação da Terra em sete dias, Gleiser diz que não há inimigos. "Eles consideram a ciência como o inimigo, porque têm um modo muito antiquado de pensar sobre ciência e religião, no qual todos os cientistas tentam matar Deus", disse.

"A ciência não mata Deus", completa.

Gleiser fundou em 2016 o ICE (Instituto de Engajamento à Interdisciplinariedade) em Dartmouth, com a ideia de promover o diálogo construtivo entre as ciências naturais e humanas, seja na esfera pública ou acadêmicas. O instituto tem apoio da fundação John Templeton.

Em 2006, ele apresentou a série de 12 episódios 'Poeira das Estrelas', no Fantástico.

Prêmio Templeton

O prêmio Templeton foi criado para "servir como um catalisador filantrópico para descobertas relacionadas às questões mais profundas que a humanidade enfrenta", de acordo com a instituição. A Fundação apoia pesquisas que vão desde a complexidade, evolução e emergência até a criatividade, perdão e livre-arbítrio.

g1.globo.com

De acordo com a fundação responsável pelo prêmio, Gleiser foi o escolhido pelo conjunto do seu trabalho que, ao longo dos anos, evoluiu para a quebra de simetria, transições de fase e estabilidade de sistemas físicos, conceitos que influenciariam sua crítica às "teorias de tudo".

"O prêmio celebra o trabalho de muitos indivíduos maravilhosos, incluindo alguns dos grandes físicos e cientistas de nosso tempo, cujas pesquisas exploraram questões de significado e valor além dos limites tradicionais de suas disciplinas. Pensar que um dia eu seria incluído em um grupo distinto, sendo um imigrante do Brasil, é inacreditável ", disse Gleiser no site do Dartmouth College.

Além de Gleiser, a fundação já premiou 48 pessoas desde que foi criada em 1972. Entre eles estão Madre Teresa (1973), Dalai Lama (2012) e o Arcebispo Desmond Tutu (2013).

Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Eclipse de Sobral: Evento comprovava a teoria de Einstein

Os cientistas registraram o eclipse em placas 
a partir da observação do telescópio 
Foto: Divulgação/ Observatório Nacional

Publicado originalmente no site da revista GALILEU, em 29/05/2019

Eclipse de Sobral: há 100 anos, evento comprovava a teoria de Einstein

Fenômeno ocorrido na cidade de Sobral, no interior do Ceará, comprovou a relatividade geral e alçou o cientista Albert Einstein ao estrelato

Por A. J. de Oliveira | Edição Maria Luísa Barsanelli 

No dia 29 de maio de 1919, o céu amanheceu nublado sobre a cidade cearense de Sobral, a 230 quilômetros da capital, Fortaleza. Tivesse o Sol permanecido encoberto, o esforço da comitiva de astrônomos teria sido em vão. Perderiam o eclipse total e a chance de provar que as ideias de Albert Einstein eram corretas.

Mas, pouco antes das 9 h, uma brecha entre as nuvens revelou o momento em que o disco solar foi obscurecido pela Lua. Muita gente acompanhava o fenômeno nas praças da cidade, e as reações foram as mais diversas.

Sobralenses amedrontados buscaram refúgio na igrejinha, temendo o Juízo Final. Os galos ao redor, confusos, cantaram pensando que já era noite. Enquanto isso, os cientistas tentavam extrair o máximo de resultados dos instrumentos de alta precisão montados num misto de observatório e laboratório improvisado no coração de Sobral. Os brasileiros se concentravam no estudo da coroa solar; os britânicos tiravam fotos. Muitas fotos.

Cinco minutos e treze segundos mais tarde, o Sol voltou a brilhar. Aquele eclipse não tinha nada de tão especial, mas acabou eternizado na história da ciência como um dos mais importantes de todos os tempos. Foi uma espécie de rito de passagem. Com os resultados, comprovaram-se as arrojadas ideias relativísticas de Albert Einstein, que substituíram o mecanicismo clássico de Isaac Newton como a melhor explicação do Universo.

O século 20 nunca mais foi o mesmo. “Foi um momento de mudança revolucionária, dizer que esse modelo de universo newtoniano incrivelmente importante não era, na realidade, o correto”, diz o britânico Richard Dunn, pesquisador da Universidade de Leicester e curador das exposições de história da ciência do Observatório de Greenwich. “Essa expedição foi vista como um teste crucial.” Meio sem querer, a pequena Sobral ganhou fama internacional por ser palco da comprovação da Teoria da Relatividade Geral.

População de Sobral observa o trabalho dos cientistas
Foto: Divulgação/Observatório Nacional

Dunn veio ao Brasil para proferir uma palestra sobre o eclipse de Sobral em outubro do ano passado. O evento, realizado no Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), no Rio de Janeiro, abriu as comemorações do centenário do fenômeno astronômico, que acontece em maio.

Talvez não por acaso, 2019 foi proclamado o Ano Brasil-Reino Unido de Ciência e Inovação pelo governo dos dois países — o evento no Mast integrou o calendário de atividades. “Podemos fazer boas parcerias nesse sentido: nós com nossa criatividade e a Inglaterra com sua tradição em pesquisa”, diz a física Anelise Pacheco, diretora do museu. “Sem cooperação, inexiste ciência.” A afirmação é tão verdadeira hoje quanto era em 1919.

Na época, foi necessária uma intensa colaboração entre ingleses e brasileiros para garantir o êxito da expedição. O arquiteto por trás da empreitada foi o astrônomo inglês Arthur Eddington, da Royal Astronomical Society (RAS). Com o auxílio de Henrique Morize, então diretor do Observatório Nacional (ON), Sobral foi escolhida por ter a melhor visibilidade do eclipse. Morize garantiu suporte logístico e a montagem de uma estação meteorológica no local para evitar que as condições climáticas estragassem os resultados.

Outra comitiva britânica foi enviada à costa africana para documentar o evento na Ilha do Príncipe, local também com observação privilegiada. Os ingleses Andrew Crommelin e Charles Davidson viajaram para Sobral, e os colegas Arthur Eddington e Frank Dyson foram a Roça Sundy, em Príncipe, onde o tempo não colaborou.

Ambas as expedições partiram da Inglaterra no dia 8 de março. Crommelin e Davidson chegaram a Sobral cerca de um mês antes do eclipse. Com eles estavam as placas fotográficas que provariam a teoria de Einstein.

Eclipse solar total de Sobral (CE)
Foto: F. W. Dyson, A. S. Eddington, 
and C. Davidson/Wikimedia Commons

Um século depois, pouquíssimos duvidam da relatividade geral. Mas, naquela época, o modelo einsteiniano ainda dava seus primeiro passos e era encarado com descrença pela comunidade científica, já que não havia sido provado. Publicada em 1916, a teoria levou oito anos para ficar pronta: foi o tempo que Einstein precisou para generalizar os postulados da relatividade especial, de 1905, e incluir a gravidade na jogada.

De acordo com a teoria do alemão, o espaço e o tempo formam um único tecido, um contínuo maleável que é distorcido por corpos de muita massa como um buraco negro, um aglomerado de galáxias ou o Sol. Nem mesmo a luz escapa: quando os fótons atravessam regiões distorcidas do Universo, suas trajetórias sofrem um desvio.

Os eclipses solares totais forneciam as condições perfeitas para testar a previsão de Einstein. Com a Lua bloqueando o brilho ofuscante do Sol, tornava-se possível enxergar (e fotografar) as estrelas próximas a ele.

Placa com o registro do eclipse 
Foto: Observatório Nacional

Por estarem quase encobertos pelo Sol quando vistos da Terra, os raios das estrelas atravessariam o espaço-tempo distorcido pelo campo gravitacional do Sol — um desvio que podia ser verificado. O segredo era fotografar essas estrelas durante o eclipse e, um tempo depois, clicá-las novamente quando estivessem na mesma região do céu, mas sem a interferência solar. Foi justamente o que a delegação britânica fez em Sobral. “Eles procuravam variações comparáveis aos mais finos fios de cabelos humanos”, explica Dunn. Precisavam de estabilidade e rigor extremos nos instrumentos para produzir resultados confiáveis.

O segundo conjunto de fotos foi tirado em julho do mesmo ano. De acordo com a teoria de Einstein, a comparação dos registros deveria ter uma diferença de 1,75 segundo de arco, enquanto a de Newton previa um número bem menor, de 0,86. Um segundo de arco equivale ao tamanho de uma estrela a olho nu. “Passaram os meses seguintes analisando aquelas placas e conseguiram centenas de páginas de cálculos baseados nas fotos”, diz Dunn. Em novembro, os olhos do mundo se voltaram para Londres, onde cientistas anunciaram que Einstein estava certo.

Prelúdio e legado

Antes do evento em Sobral, pesquisadores de vários países organizaram expedições para acompanhar eclipses totais do Sol. Todas fracassaram. Uma delas, inclusive, foi no Brasil, na cidade mineira de Passa Quatro, em 1912.

Mas as coisas acabaram acontecendo na hora certa, diz a astrofísica Patrícia Spinelli, do Mast. “Se o de Passa Quatro tivesse sido o eclipse da comprovação, não teria dado a fama que Sobral deu a Einstein.” À época da expedição em Minas Gerais, boa parte da relatividade geral ainda estava confinada à mente do físico. “Quando os céus se abriram em 1919, a teoria já estava completa e pôde ser comprovada.”

E não foi só Einstein que se beneficiou: as ciências britânica e brasileira enriqueceram-se muito. A expedição ficou marcada na trajetória da Royal Astronomical Society. Segundo Robert Massey, membro da diretoria executiva da RAS, foi uma das poucas ocasiões em que a organização se envolveu em todas as etapas de uma campanha.

A equipe que participou da expedição a Sobral 
Foto: Divulgação/Observatório Nacional

Hoje, fica claro que o legado não se limita à ciência — deixou também uma rica bagagem cultural no país. No acervo do Mast existem 3 mil peças relacionadas ao eclipse, que incluem documentação e instrumentos, como telescópios. Para celebrar o centenário, a instituição abrirá uma mostra.

Em Sobral, há uma movimentação intensa para a data. Até o centenário, a cidade cearense quer lançar um selo comemorativo, conduzir sessões na Assembleia Legislativa do Ceará e no Senado Federal e montar uma exposição no Congresso Nacional, além de reabrir seu planetário, inaugurar uma estátua de Einstein e lançar a pedra fundamental do Monumento da Luz.

“Isso deveria inspirar as pessoas a falar: ‘Sabia que aqui tivemos uma das maiores descobertas científicas da história?”, diz Massey. É um sentimento que permanece tão atual e verdadeiro quanto as ideias de Einstein.

PERSONAGENS DA OBSERVAÇÃO
Conheça quatro dos pesquisadores envolvidos

Andrew Crommelin (1865-1939)
Matemático e astrônomo-assistente do Observatório Real de Greenwich

Charles Davidson (1875-1970)
Computador (calculista) júnior do Observatório Real de Greenwich

Arthur Eddington (1882-1944)
Astrônomo, físico e matemático, era diretor do Observatório de Cambridge

Edwin Cottingham (1869-1940)
Fabricava relógios de altíssima precisão para pesquisas astronômicas

A JORNADA DO ECLIPSE
Entenda a trajetória e conheça os integrantes das expedições que documentaram o fenômeno

8/3/1919
Ambos os grupos partem do porto de Liverpool a bordo do navio SS Anselm. Na Ilha da Madeira, os astrônomos se dividem.

23/3/1919
É em Belém que Crommelin e Davidson chegam ao Brasil. Com tempo, vão a Manaus para conhecer a Floresta Amazônica.

23/4/1919
Eddington e Cottingham desembarcam na Ilha do Príncipe e, cinco dias depois, em Roça Sundy, seu ponto de observação.

30/4/1919
Crommelin e Davidson chegam a Sobral e escolhem a pista do Jockey Clube para montar os instrumentos.

29/5/1919
Sobral amanhece nublado, mas uma brecha no céu permite as medições.

9/7/1919
Após um tempo em Fortaleza, Crommelin e Davidson voltam a Sobral para fotografar as mesmas estrelas, só que sem a interferência do Sol.

6/11/1919
Os resultados foram revelados ao mundo: apontaram que o desvio pendia mais para as predições de Einsten que para as de Newton.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistagalileu.globo.com

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Dia histórico p/ciência: Primeira imagem de buraco negro

Primeira foto de um buraco negro supermassivo 
no centro da galáxia M87 feita pelo projeto
Event Horizon Telescope

Dia histórico para a ciência: revelada a primeira imagem de buraco negro

Event Horizon Telescope, rede de oito observatórios ao redor do mundo, divulgou hoje a primeira imagem real de um buraco negro supermassivo, fenômeno previsto por Einstein

Por Luiza Caires (Editorias: Ciências Exatas e da Terra)

S Se você está lendo este texto, está entre as pessoas de sorte que viveram para ver uma imagem histórica para a ciência. Acaba de ser revelada a primeira foto de um buraco negro supermassivo no centro de Messier 87, uma enorme galáxia no aglomerado de Virgem. Este buraco negro está a 53,5 milhões de anos-luz da Terra e tem uma massa de 6,5 bilhões de vezes a massa do Sol. Esses monstros cósmicos conhecidos como buracos negros são pequenos, considerando a escala universal, mas com uma massa imensa a ponto de gerar um efeito gravitacional gigantesco. E que torna impossível a luz escapar deles – daí o nome que recebem. Mas para entender o tamanho do feito da equipe do Event Horizon Telescope, rede de oito observatórios ao redor do mundo, vamos voltar um pouco no tempo.

O ano é 1975, e um jovem cientista chamado João Steiner acaba de defender o seu mestrado no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. A dissertação Um modelo para Cygnus X-1 trata da primeira fonte de raios X, identificada na constelação do Cisne, aceita como uma candidata a buraco negro. Até bem pouco tempo antes, esses objetos singulares eram no máximo uma teoria bem construída, quando uma prova indireta de sua existência – Cygnus X-1 – fora revelada.

Passamos para 1995, ano da descoberta de um disco em torno da galáxia NGC 4258, que só a existência de um buraco negro poderia explicar. Pouco tempo depois, em 2002, é descoberta uma estrela chamada S2, aqui na Via Láctea. Novamente, as características da órbita de S2 só poderiam ser explicadas se o objeto invisível ao redor do qual a estrela se movimenta fosse um buraco negro. Depois desta observação, praticamente não havia mais quem, na comunidade científica, duvidasse da existência dos buracos negros.

Professor João Steiner: imagem exibe fenômeno 
previsto pela Teoria da Relatividade Geral, de Einstein, 
além de ser um feito tecnológico extraordinário
Foto: Luiza Caires

Antes disso, porém, não era desprezível o número de cientistas céticos quanto à realidade destes objetos diretamente invisíveis. Para Steiner, contudo, muito tempo antes, as evidências dos buracos negros já eram sólidas o suficiente para não abalar sua confiança. Nem mesmo na década de 70, quando um pesquisador norte-americano mais experiente que dava aula no IAG alfinetou o então cientista em início de carreira, saindo da sala onde o astrofísico acabava de defender sua dissertação: “Eu não acredito em buracos negros, isso não existe”, disse Charles Dean.

Pulamos para 2019, ano em que é apresentada a primeira foto de um buraco negro. Agora, um dos maiores estudiosos no Brasil do fenômeno, Steiner sorri ao relembrar a história. “Faz parte. É saudável haver ceticismo na comunidade científica”, diz ele. Mas ressalva: “Somente até que as evidências sejam indiscutíveis. Não dá para ser cético diante de evidências acumuladas por décadas, como é o caso do aquecimento global, por exemplo”.

Nesta quarta-feira, 10 de abril, o professor do IAG se revezou entre o evento organizado no instituto para retransmitir a coletiva do Event Horizon Telescope (EHT) e uma reunião acadêmica, marcada (sob alguns protestos) para o mesmo horário. A afirmação do diretor do projeto EHT, Sheperd Doeleman, explica os protestos de quem queria acompanhar o evento, e resume seu impacto: “Nós tiramos a primeira foto de um buraco negro”, disse. “Este é um extraordinário feito científico realizado por uma equipe de mais de 200 pesquisadores”, comemorou Doeleman durante uma das conferências de imprensa simultâneas em todo o mundo em que o EHT revelou o sucesso da empreitada, exibindo a primeira evidência visual direta de um buraco negro supermassivo e sua sombra.

Radiotelescópios captaram a radiação que foi processada
para formar a imagem: uma silhueta do buraco negro 
supermassivo que fica em outra galáxia 
Foto: Jonathan Weintroub/Eventhorizontelescope.org

“Conseguimos algo que se presumia impossível apenas há uma geração”, concluiu Doeleman. “Avanços na tecnologia, conexões entre os melhores observatórios de rádio do mundo e algoritmos inovadores se uniram para abrir uma janela totalmente nova sobre os buracos negros e o horizonte de eventos.”

Rodrigo Nemmen, professor do IAG que pesquisa buracos negros e organizou a transmissão da coletiva no Brasil, ecoa a empolgação. “Estou eletrizado. Vamos desfrutar deste momento. É a primeira vez que a nossa espécie fez uma fotografia de um dos objetos mais assombrosos do universo. Este tipo de coisa acontece só uma vez na história.”

Como isso foi possível?

O Event Horizon Telescope tem seus radiotelescópios espalhados pelo planeta, apontando para dois buracos negros supermassivos: Sagitário A*, localizado no centro da Via Láctea, e um buraco negro ainda mais massivo, porém mais distante: 53,5 milhões de anos-luz de distância na galáxia M87 – foi este último que teve sua imagem revelada.

Rodrigo Nemmen, professor do IAG: 
um dia eletrizante para os cientistas 
Foto: Ana Paula Tauhyl

Há exatamente dois anos, em abril de 2017, a rede se uniu para observar o chamado horizonte de eventos desses buracos negros. Trata-se do limite até onde a luz consegue passar próxima ao buraco sem ser sugada por sua força gravitacional extrema. Se nem a luz pode escapar, além do horizonte de eventos tudo é escuridão. Mas junto com gás, poeira e átomos se chocando em velocidades extremas, as micro-ondas do disco de gás que fica em volta do buraco (o chamado disco de acreção) formam um anel de radiação que pode ser captada para nos mostrar os contornos do buraco negro. E é isso que mostra a imagem, obtida a partir do cruzamento dos dados dos observatórios.

Não bastava, no entanto, captar essa radiação. O processamento dos dados obtidos pela interferometria das ondas captadas através de cada um dos telescópios exigiu tecnologia robusta e o trabalho de um grupo enorme de cientistas, por dois anos. Por isso, só agora as imagens foram apresentadas.

O que estamos vendo?

A imagem capturou a sombra do buraco negro no interior do disco de material brilhante que a acompanha. Por causa da gravidade intensa perto de um buraco negro, a trajetória da luz mostrada na imagem, correspondendo à radiação do disco, é deformada em torno do horizonte de eventos e aparece na forma de um anel. A imagem é mais brilhante de um lado do que do outro porque o disco de acreção está girando ao redor do buraco negro: um efeito relativístico semelhante ao efeito Doppler (distorção observada em ondas que são emitidas por uma fonte em movimento) faz com que o lado do disco que gira na direção da Terra pareça mais brilhante, enquanto que o mesmo efeito faz com que o lado do disco que está se afastando da Terra pareça mais escurecido.

O que vamos fazer com isso?

Essa foto com certeza será emoldurada e pendurada em salas de muitos cientistas ao redor do mundo – além de ajudar a popularizar as pesquisas científicas num momento em que a ciência está sob ataques. Mas sua importância vai muito além disso. A primeira imagem real de um buraco negro vai ajudar astrônomos e físicos a entender melhor esses objetos misteriosos. Se existem aprimoramentos a serem feitos nas teorias de Albert Einstein, o melhor fenômeno do Universo para conhecê-los é um buraco negro supermassivo cuja existência, inclusive, ele previu. “Fazer imagens do horizonte de eventos é uma importante confirmação da teoria da relatividade geral de Albert Einstein”, diz Steiner.

Rede de oito observatórios ao redor do mundo, 
inclusive no Polo Sul, permitiu a observação da
imagem do buraco negro em M87
Mapa: EHT em The Astrophysical Journal Letters

A teoria da relatividade geral prediz a deformação do espaço-tempo por objetos de alta massa, além de prever a existência de buracos negros, os objetos mais densos do Universo. Dessa forma, a curvatura que eles criariam seria tão grande que, a partir de um certo ponto chamado horizonte de eventos, nem a luz conseguiria escapar. Por isso, se a teoria estiver correta, os buracos negros deveriam ser observados como regiões aproximadamente circulares sem qualquer emissão de radiação. Ou seja, o que veríamos seria apenas a matéria orbitando ao redor do horizonte de eventos. E é exatamente isso que a imagem do EHT nos mostrou.

Além disso, o professor do IAG destaca que a massa do buraco negro calculada a partir da imagem está bem próxima dos resultados obtidos por outros meios, o que valida metodologias importantes para as pesquisas da astrofísica. Por fim, ele também ressalta que o grau de resolução da imagem apresentada “é um feito tecnológico extraordinário”.

A conquista do EHT também foi anunciada em uma série de seis artigos que acabam de ser publicados em uma edição especial do The Astrophysical Journal Letters.

Por: Luiza Caires
Consultoria científica: Natália Del Coco

Texto e imagens reproduzidos do site: jornal.usp.br

sábado, 5 de janeiro de 2019

Sonda chinesa pousa no lado oculto da Lua...

Imagem feita pela Chang'e 4 durante a chegada à Lua.
Foto: China National Space Administration/Xinhua News Agency via AP

Publicado originalmente no site G1, em 03/01/2019

Sonda chinesa pousa no lado oculto da Lua pela primeira vez na história

Com a missão, país se coloca em destaque na corrida espacial. Objetivo é estudar a composição dessa parte do satélite, que não pode ser vista da Terra.

Por G1

A sonda espacial chinesa Chang'e 4 pousou, nesta quinta-feira (3), no lado oculto da Lua — a parte do satélite que não é visível da Terra. Segundo a Administração Nacional Espacial da China, é a primeira vez na história que este pouso é realizado. As informações são das agências de notícias EFE, Associated Press, e da Rede Global de Televisão da China (CGTN, em inglês).

A nave, que tem um módulo e um 'rover' — veículo de exploração espacial — deve estudar a composição mineral, o terreno, relevo e a manta da superfície lunar, a camada abaixo da superfície. Também deve realizar observações astronômicas por meio de baixas frequências de rádio, a chamada radioastronomia.

"O lado oculto da Lua é um raro lugar calmo, que está livre da interferência de sinais de rádio vindos da Terra", afirmou o porta-voz da missão, Yu Gobin, segundo a agência de notícias estatal Xinhua News. "Essa sonda pode preencher o vazio de observação de baixa frequência na radioastronomia, e irá fornecer informações importantes para estudar a origem das estrelas e da evolução da nébula [solar]".

A alunagem [aterrissagem na superfície lunar], realizada às 0h26 (horário de Brasília), "abriu um novo capítulo na exploração humana da Lua", afirmou a agência espacial chinesa. O local exato do pouso foi a cratera Von Karman, no polo sul lunar, que tem 186 quilômetros de diâmetro e 13 quilômetros de profundidade. Segundo a AP, cientistas chineses acreditam que pousar nessa cratera possibilitaria coletar novas informações sobre a manta da Lua.

O lado oculto da Lua é relativamente pouco explorado e tem uma composição diferente daquela do lado "próximo", que pode ser visto da Terra, e onde outras naves já pousaram. Países como a antiga União Soviética, os Estados Unidos e até mesmo a própria China já haviam realizado missões desse tipo.

De acordo com a Nasa, a agência espacial americana, essa parte do satélite foi observada pela primeira vez em 1959, quando a nave soviética Luna 3 enviou as primeiras imagens. Em 1962, os Estados Unidos tentaram enviar uma missão não tripulada ao lado oculto da Lua, que não deu certo, segundo a EFE.

China no espaço

Foguete Long March-3B, que carrega a sonda lunar 
Chang'e 4, decola do Centro de Lançamento de Satélites 
Xichang em dezembro de 2018
Foto: Reuters

A Chang'e 4 foi lançada no dia 8 de dezembro do ano passado pelo foguete Long March 3B, do Centro de Lançamento de Satélites de Xichang, na província de Sichuan. Quatro dias mais tarde, a sonda entrou na órbita lunar. As comunicações entre a sonda e a Terra são possíveis graças a um satélite, Queqiao, posto em órbita em maio de 2017 e que funciona como um transmissor "espelho" de informações entre os centros de controle na Terra e Chang'e 4.

Blog do Cássio Barbosa: 2019: o ano da Lua!

O objetivo do programa Chang'e, que começou com o lançamento de uma primeira sonda orbital em 2007, é uma missão tripulada à Lua a longo prazo, ainda sem data definida. A primeira missão espacial tripulada da China foi em 2003 — o terceiro país a realizar uma depois de Rússia e Estados Unidos. O país também colocou duas estações espaciais em órbita e planeja lançar um 'rover' em Marte no meio da década de 2020.

Em 2013, a Chang'e 3, a nave predecessora da missão atual, fez o primeiro pouso na Lua desde a Luna 24, lançada pela União Soviética em 1976. Os Estados Unidos são o único país que conseguiu mandar uma pessoa à Lua.

O programa espacial chinês sofreu um revés no ano passado, quando o lançamento do foguete Long March 5 falhou. Por enquanto, a China planeja enviar a sonda Chang'e 5 à Lua no ano que vem e trazê-la de volta à Terra com amostras — algo que não foi feito desde a missão soviética de 1976.

A chegada da Chang'e 4 marca as ambições chinesas de rivalizar com os EUA, a Rússia e a Europa no espaço — e, mais amplamente, de solidifcar a posição da China como um poder regional e global.

"O sonho do espaço é parte do sonho de tornar a China mais forte", afirmou o presidente Xi Jinping já em 2013, pouco depois de chegar ao poder.

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com/ciencia-e-saude

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Geneticistas condenam cientista que editou genes...

Manipular o DNA e seus dilemas éticos

Geneticistas condenam cientista que editou genes em embriões

Pesquisa é “irresponsável e preocupante”, afirmam especialistas reunidos em congresso internacional sobre o tema

Por Radio France Internationale

Os organizadores do Congresso Internacional de Edição de Genomas Humanos (Gene Edit Summit) condenaram nesta quinta-feira 29 a pesquisa do geneticista chinês He Jiankui, que anunciou durante o evento ter modificado os genes dos embriões de gêmeas para torná-las resistentes ao HIV, o vírus da AIDS.

O professor da Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China, em Shenzhen, cidade que faz fronteira com Hong Kong, alega ter eliminado um gene chamado CCR5 que impediria as meninas gêmeas de serem contaminadas pelo HIV em caso de contato com o vírus. A modificação foi feita antes dos embriões serem implantados no útero da mãe.

De acordo com os organizadores do congresso, a pesquisa é “irresponsável e preocupante”. Ainda segundo o texto do comunicado, mesmo se as modificações genéticas forem confirmadas, o procedimento desrespeita as regras internacionais.

Os organizadores pedem uma avaliação independente da pesquisa realizada por Jiankui, que afirmou na terça-feira 27 ter usado a tecnologia Crisp-Cas9 para modificar os embriões. A técnica, que permite “editar” a sequência do DNA e abre caminho para a cura de doenças pela terapia gênica, suscita interrogações sobre a ética e a segurança envolvidas.

A comunidade científica chinesa também condenou a pesquisa. A Universidade de Ciência e Tecnologia do sul da China, onde He Jiankui é professor, anunciou a abertura de uma investigação. Atualmente, Jiankui está de licença. A comissão sanitária da província de Guangdong, onde fica a universidade, informou a abertura de uma investigação nas instalações da universidade.

As revelações do jovem geneticista chinês He Jiankui na véspera da abertura do Congresso Internacional de Edição de Genomas Humanos (Gene Edit Summit), em Hong Kong, transformaram o evento acadêmico em uma grande coletiva de imprensa sobre o caso.

As declarações pegaram a comunidade acadêmica de surpresa, pois os resultados da pesquisa ainda não foram publicados. O que seria o roteiro tradicional para tornar público grandes desenvolvimentos científicos. Por enquanto, os dados não foram verificados de forma independente. Mesmo assim, ninguém parece duvidar que o experimento seja tecnicamente viável. Faltava apenas romper barreiras morais.

Nem os organizadores do congresso sabiam dessa pesquisa com embriões humanos. O professor deveria apresentar outro trabalho no evento, mas diante da reação internacional teve que dar explicações sobre o estudo feito praticamente em segredo.

Para muitos cientistas, He Jiankui foi longe demais. A alteração genética em laboratório de embriões humanos saudáveis, que depois foram implantados no útero de uma paciente, gerou uma onda de condenações e abriu o debate sobre a ética e a legalidade desse procedimento.

A tecnologia Crispr permite que cientistas modifiquem o DNA de um organismo, "recortando e colando” partes do material genético em pontos específicos do genoma. Experimentos vinham sendo feitos com animais, como ratos e macacos.

Técnica ainda gera questionamentos éticos

A possibilidade de edição genética é uma esperança para impedir doenças, mas é motivo de grande apreensão e incerteza sobre limites e consequências. Há muitas perguntas sem respostas. Os riscos são difíceis de prever. O DNA alterado pode provocar outras modificações no próprio organismo ou no de seus descendentes.

O congresso da Universidade de Hong Kong foi invadido por dezenas de jornalistas. He não respondeu as perguntas da mídia, mas foi sabatinado por seus colegas.

Os questionamentos foram muitos. O cientista foi criticado pela falta de transparência do projeto que começou há três anos e chamado de irresponsável. Alguns acusaram a falta de autorregulação da comunidade científica de ter criado o ambiente para que isso acontecesse. Outros acreditam que o mundo está pronto para o uso clínico responsável da técnica.

A China foi apontada como o terreno fértil para experimentos desse tipo, graças ao grande volume de investimento em pesquisa científica, ao capital humano disponível - profissionais com alta formação – somados a uma regulação opaca e a inexistência de lobby religioso, que em outros países condena qualquer pesquisa com embriões.

Robin-Lovell-Badge, geneticista do Francis Crick Institute, disse aos jornalistas presentes que não há nada que sugira que o colega chinês não fez o que diz, mas que He falhou em não tomar todas as precauções e se assegurar que o procedimento era legal. "Ele não considerou a abordagem mais consciente e cuidadosa”, acrescentou.

Texto e imagem reproduzidos do site: cartacapital.com.br

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Sonda da Nasa pousa em Marte (26/11/2018)

Imagem - Nasa

Publicado originalmente no site G1 GLOBO, em 26/11/2018 

Sonda da Nasa deve pousar nesta segunda (26) em Marte

A expectativa é de que a sonda pouse na superfície do planeta vermelho por volta das 18h, no horário de Brasília, desta segunda-feira (26). A viagem durou quase sete meses.

Por G1

A Nasa está na contagem regressiva para o pouso em Marte, nesta segunda-feira (26), da sonda Mars InSight, a primeira capaz de ouvir terremotos e estudar o funcionamento interno de outro planeta rochoso.

A nave espacial não tripulada foi lançada há quase sete meses e percorreu 482 milhões de km. É possível assistir à transmissão ao vivo do pouso no site da Nasa (a partir das 17h do horário de Brasília).

Parte de sua missão é informar dos esforços para enviar algum dia exploradores humanos ao planeta vermelho — algo que a Nasa espera concretizar na década de 2030. A InSight não tem capacidade de detectar vida no planeta — isso será deixado para os futuros robôs. A missão da agência em 2020, por exemplo, irá coletar rochas que possam conter evidências da vida antiga.

Este pouso em Marte é o primeiro desde 2012, quando o explorador Curiosity da Nasa pousou na superfície e analisou as rochas em busca de sinais de vida que possa ter habitado o planeta vizinho da Terra, agora gélido e seco.

A InSight, de 993 milhões de dólares, deve sobreviver à difícil entrada na atmosfera do planeta vermelho, viajando a uma velocidade de 19.800 km/h e reduzindo rapidamente a velocidade a apenas 8 km/h.

"Nós estudamos Marte da órbita e da superfície desde 1965 — aprendendo sobre o tempo, atmosfera, geologia e química de superfície", afirmou Lori Glaze, diretora em exercício da divisão de ciência planetária da direção de missões científicas da Nasa. "Agora iremos finalmente explorar dentro de Marte e aprofundar nosso entendimento do nosso vizinho terrestre, enquanto a Nasa se prepara para enviar exploradores humanos mais fundo dentro do sistema solar".

Missão da Nasa quer descobrir as características 
do interior do planeta vermelho — Foto: Roberta Jaworski/G1 

A fase de entrada, descida e aterrissagem começará às 17h47 (horário de Brasília) de segunda-feira (26). Meio de brincadeira, na Nasa se referem a essa etapa como os "seis minutos e meio de terror". A expectativa de aterrissagem é para as 18h.

Na tarde de domingo (25), os engenheiros da agência corrigiram a trajetória da sonda pela última vez, para guiá-la para dentro de alguns quilômetros de seu ponto de entrada desejado sobre Marte. Cerca de duas horas antes de entrar na atmosfera, a equipe de entrada, descida e aterrissagem também pode atualizar alguns detalhes do algoritmo que guia a espaçonave em segurança até a superfície, informou a agência espacial em seu site.

Esses serão os últimos comandos enviados à InSight antes que ela se guie automaticamente, com a ajuda de robôs, pelo resto do caminho. Nenhum experimento, até hoje, foi movido roboticamente de uma nave até a superfície marciana.

"Levou mais de uma década para levar a InSight de um conceito até uma nave espacial se aproximando de Marte — e ainda mais desde que eu me inspirei a embarcar nesse tipo de missão", disse Bruce Banerdt, do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL, em inglês) da Nasa e investigador principal da InSight. "Mas, mesmo depois do pouso, nós precisaremos ser pacientes até a ciência começar".

Banerdt acrescentou, ainda, que "aterrissar em Marte é um dos trabalhos mais difíceis já feitos em exploração planetária. É uma coisa tão difícil, tão perigosa, que sempre há uma possibilidade desconfortavelmente grande de que algo pode dar errado", disse.

Deve levar de dois a três meses para que o braço robótico da InSight coloque os instrumentos da missão na superfície. Durante esse tempo, os engenheiros irão monitorar o ambiente e fotografar o terreno em frente à sonda.

No JPL, a equipe de operações de superfície irá praticar a configuração dos instrumentos. Eles usarão uma réplica funcional do InSight em uma "caixa de areia de Marte" coberta, que será esculpida para coincidir com o local de pouso da missão em Marte. A equipe verificará se os instrumentos podem ser implantados com segurança, mesmo se houver rochas próximas ou áreas InSight em ângulo.

Uma vez que a posição final de cada instrumento esteja decidida, levará várias semanas para levantar cada um com cuidado e calibrar suas medições. Então a ciência estará realmente em andamento.

Pouso difícil

Das 43 missões lançadas a Marte, apenas 18 chegaram ao planeta vermelho — uma taxa de sucesso de cerca de 40%. Segundo a agência de notícias americanas Associated Press, os Estados Unidos já conseguiram aterrissar no planeta sete vezes nas últimas quatro décadas. A InSight pode ser a oitava vitória da Nasa.

"Ir a Marte é muito, muito difícil", disse Thomas Zurbuchen, administrador associado da direção de missões científicas da Nasa.

"A parte emocionante é que estamos construindo sobre o sucesso da melhor equipe que já aterrissou neste planeta, que é a equipe da Nasa" e seus colaboradores.

O instrumento central da InSight é um sismômetro de detecção de terremotos que foi feito pela Agência Espacial Francesa (CNES).

"Esta é a única missão da Nasa concebida em torno de um instrumento de fabricação estrangeira", disse Jean-Yves Le Gall, presidente da CNES, à agência de notícias francesa France Presse. Por isso, acrescentou, "é uma missão fundamental para os Estados Unidos, França", e para melhorar a compreensão de Marte.

Os seis sensores de terremoto a bordo são tão sensíveis que deveriam revelar os menores tremores em Marte, como o fraco puxão de sua lua Fobos, os impactos dos meteoros e possivelmente a evidência de atividade vulcânica.

A nave também tem uma sonda que pode escavar uma profundidade de três a cinco metros, para oferecer a primeira medição precisa das temperaturas sob a terra em Marte e a quantidade de calor que escapa de seu interior.
A sismologia ensinou à humanidade muito sobre a formação da Terra, há cerca de 4,5 bilhões de anos, mas grande parte da evidência baseada na Terra se perdeu com a reciclagem da crosta, impulsada pela tectônica de placas. Este processo não existe em Marte. Com imagens em 3D, os cientistas esperam revelar como as rochas do nosso próprio planeta se formaram, e por que se tornaram tão diferentes.

O Planeta Vermelho costumava ter rios e lagos, mas, hoje, os deltas (desembocaduras) e os leitos dos lagos estão secos e o planeta está frio. Vênus é uma fornalha por causa de sua atmosfera espessa e aprisionadora de calor. Mercúrio, mais próximo do sol, tem uma superfície terminantemente assada.

O pouso da InSight será amortecido por um paraquedas. Seu escudo térmico ajudará a desacelerar a nave e a protegê-la contra a fricção da entrada na atmosfera de Marte. O local de pouso é uma área plana chamada Elysium Planitia, que a Nasa apelidou de "o maior estacionamento em Marte".

Como a Nasa vai saber que a InSight pousou?
A agência espacial explicou em seu site, no último dia 16, como funciona o processo de saber que a InSight chegou a Marte — e ele pode não ser tão instantâneo assim.

A equipe responsável pela InSight irá monitorar os sinais de rádio da sonda de Marte usando uma variedade de espaçonaves — e até mesmo radiotelescópios aqui na Terra -— para descobrir o que está acontecendo a 146 milhões de quilômetros de distância.

Como esses sinais são capturados por várias naves espaciais, eles são retransmitidos para a Terra de maneiras diferentes e em momentos diferentes. Isso significa que a equipe da missão pode saber imediatamente quando o InSight toca, ou pode ter que esperar várias horas.

Radiotelescópios

À medida que o módulo InSight desce na atmosfera de Marte, ele transmitirá sinais de rádio simples chamados "tons" de volta à Terra. Os engenheiros estarão sintonizados em dois locais: um na Virgínia Ocidental, nos EUA, e outro em Effelsberg, Alemanha.

Esses tons não revelam muita informação, mas os engenheiros de rádio podem interpretá-los para rastrear os principais eventos durante a entrada, descida e aterrissagem (EDL) da InSight. Por exemplo, quando o InSight implanta seu pára-quedas, uma mudança na velocidade altera a frequência do sinal. Isso é causado pelo que é chamado de efeito Doppler, que é a mesma coisa que ocorre quando você ouve uma mudança de sirene quando uma ambulância passa.

Duas naves espaciais do tamanho de uma maleta estão voando atrás do InSight e tentam retransmitir seus sinais para a Terra. Se funcionarem como deveriam, o par transmitirá toda a história da entrada, descida e aterrissagem conforme ela se desenrola. Isso pode incluir uma imagem da InSight da superfície marciana logo depois que a sonda toca.

InSight

Depois que aterrissar, a InSight essencialmente gritará: "Eu consegui!" Sete minutos depois, a espaçonave diz isso de novo — mas um pouco mais alto e mais claro.

Na primeira vez, ele se comunicará com um sinal sonoro que os radiotelescópios tentarão detectar. Na segunda vez, enviará um "bipe" da sua antena de banda X mais potente, que agora deve ser apontada para a Terra. Este bipe inclui um pouco mais de informação e só é ouvido se a espaçonave estiver em um estado de funcionamento saudável. Se a Deep Space Network da NASA captar esse bipe, é um bom sinal de que o InSight sobreviveu ao pouso. Os engenheiros precisarão esperar até o início da noite para descobrir se a sonda implantou com sucesso seus painéis solares.

Mars Reconnaissance Orbiter (MRO)

Além do MarCO CubeSats, o MRO da NASA estará sobrevoando Marte, registrando os dados do InSight durante a descida.

A MRO manterá os dados que registra durante o processo de aterrissagem à medida que desaparece no horizonte de Marte. Quando voltar do outro lado, ele reproduzirá os dados para os engenheiros estudarem. Por volta das 21h (horário de Brasília), eles devem ser capazes de juntar a gravação do pouso da MRO, que é semelhante à caixa preta de um avião. Isso significa que também pode ser importante se a InSight não conseguir pousar com sucesso.

2001 Mars Odyssey

A sonda de mais longa duração da NASA em Marte também transmitirá dados após o InSight ter pousado. A Odyssey irá transmitir toda a história da descida da InSight para Marte, bem como algumas imagens. Ele também transmitirá a confirmação de que os painéis solares da InSight, que são vitais para a sobrevivência da nave espacial, foram totalmente implementados. Os engenheiros terão esses dados antes das 23h30 (horário de Brasília).

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Publicado originalmente no site G1 GLOBO, em 26/11/2018 

Nova sonda em Marte vai fazer uma espécie de 'ultrassom' do planeta

Por Cássio Barbosa, G1

 Sonda Insight em centro da Nasa (Foto: Cássio Barbosa/G1) 

Os sete meses de espera finalmente estão chegado ao fim! No final da tarde hoje a sonda Insight da agência espacial americana NASA vai iniciar seus procedimentos para pousar em Marte e o leitor incauto pode se perguntar: mas de novo?

Pois é, de novo Marte, mas desta vez a ideia é um pouco diferente. Ao invés de observar as coisas acontecendo da superfície marciana para cima, por assim dizer, a InSight vai “olhar” para dentro de Marte!

A NASA tem dito que esta será a primeira missão espacial a fazer um verdadeiro checkup médico de um planeta, registrando pulsação, temperatura e fazendo um ‘ultrassom’ planetário. A missão Insight visa obter dados do interior de Marte para construir um cenário de como teria sido sua evolução desde que o Sistema Solar foi formado. Essa missão em específico não tem o propósito de procurar pistas sobre possíveis formas de vida, seja atualmente, seja no passado.
O carro chefe da missão é um instrumento construído em parceria com a França para medir abalos sísmicos em Marte. Trata-se de um sismógrafo ultrassensível que pretende registrar os abalos provocados até pelo choque de micrometeoritos com a superfície marciana. O objetivo de tomar dados tão sensíveis assim é o de usar a propagação das ondas sísmicas através do interior do planeta para se construir sua estrutura interna. Esse é o ultrassom marciano que eu mencionei.

O procedimento é semelhante ao exame usual que volta e meia precisamos fazer em uma clínica, mas neste caso são utilizadas ondas sonoras em alta frequência. Como o corpo humano tem diversos órgãos com estruturas e densidades diferentes, as ondas sonoras se propagam de maneira diferente ao atravessar ou refletir quando encontra um tecido diferente. Com isso, é possível processar os sinais que são refletidos (ou não) de maneiras diferentes para reconstruir uma imagem da estrutura que provocou as diferenças entre o sinal gerado e o recebido.

Em Marte serão usadas as ondas sísmicas provocadas por movimentações de terreno. Não que se espere martemotos gerados por deslocamentos de placas tectônicas, como ocorrem na Terra, mas por exemplo desabamento de cavernas ou mesmo avalanches em encostas de desfiladeiros, como já foi detectado. Aliás, não se espera tectonismo em Marte, mas se ocorrerem movimentações de placas tectônicas, o SEIS (sigla em inglês para Experimento Sísmico para Estrutura Interior) vai detectá-las. Outro “gerador” de ondas sísmicas é a queda de meteoritos na superfície marciana. O choque do meteorito com o solo gera perturbações que serão captadas à distância. O instrumento é tão sensível que poderá captar até mesmo as perturbações geradas pelos redemoinhos marcianos, os famosos ‘dust devils’.

Aliás, essa alta sensibilidade causou um problema no desenvolvimento da missão. Durante um tempinho os técnicos que construíram os sismógrafos ficavam encafifados que havia sempre um ruído de fundo durante os testes. Eram injetados sinais sutis para se testar sua eficiência, mas ao terminarem os testes, o instrumento continuava a registrar algum sinal. Levou um tempo para que se descobrisse que o sinal vinha da movimentação de sinos de uma torre na universidade, a uma distância de quase 500 metros!

Essa história me foi contata por Ivair Gontijo, engenheiro brasileiro que trabalha no JPL da NASA na integração dos instrumentos do próximo jipe marciano, o Mars 2020. Gontijo foi o responsável por projetar os radares que controlaram o pouso do jipe Curiosity em 2012. Por ser tão sensível é que o sismógrafo vai ser depositado gentilmente por um braço robótico ao lado da sonda. Gontijo me explicou que os sismógrafos embarcados nas sondas Viking na década de 1970, mais precisamente nas pernas da sonda, falharam em registrar sismos porque os ventos marcianos faziam a estrutura toda oscilar e isso mascarava qualquer sinal vindo do subsolo.

Essa é uma foto do módulo de engenharia da InSight que eu tirei na sala limpa do JPL em Pasadena, Califórnia, durante uma visita em julho deste ano. Esse módulo é uma réplica funcional da sonda que deverá pousar daqui a pouco em Marte, apenas sem seus painéis solares. O propósito de se manter uma réplica como essa é testar algum procedimento que seja necessário fazer em Marte. Se a InSight tiver algum problema, uma solução será testada nesse módulo antes de ser enviada a Marte. Logo depois de pousar, a sonda deverá enviar imagens da região à sua volta para que sua cercania seja replicada no ‘Jardim Marciano’, o campo de testes das sondas com destino a Marte, lá mesmo em Pasadena. O terreno e a disposição das pedras serão usados para planejar a melhor maneira de depositar o sismógrafo no solo.

Aliás o pouso da InSight também está sendo chamado de ‘6 minutos de terror’ (com a Curiosity foram 7). A massa destas sondas e suas velocidades de entrada são muito grandes para que apenas um mecanismo de pouso possa ser usado. Assim que a sonda inicia sua entrada, ela é freada pela própria atmosfera com um escudo térmico para proteção. Quando a velocidade cai o suficiente, um paraquedas gigantesco é ejetado. Só que a atmosfera marciana representa algo como 1% da atmosfera terrestre e isso impede que a sonda reduza a velocidade de queda para níveis adequados. Já próximo à superfície, a sonda se livra do paraquedas e dispara retrofoguetes que finalmente vão desacelera-la a níveis seguros para pousar.

Além do sismógrafo, a InSight carrega também um termômetro e um sensor de posição. O termômetro não é um termômetro qualquer, mas na verdade uma barra de aproximadamente 5 metros que será enterrada no solo marciano. Marte já foi escavado em outras expedições, mas nada além de uns poucos centímetros, dessa vez o buraco é mais embaixo, literalmente. O objetivo deste instrumento é ver como é a transmissão e dissipação do calor no subsolo e com isso ter uma ideia de como Marte foi se esfriando ao longo de bilhões de anos de existência.

Já o sensor de posição vai permitir, usar as transmissões dos satélites em órbita de Marte para triangular a posição da sonda com altíssima precisão. O objetivo é medir variações sutis de sua posição em 3 dimensões para registrar o movimento de “bamboleio” que ele executa junto com sua revolução (no meu tempo chamada de translação) e rotação. E o interesse em se ter essa medida com precisão muito alta é determinar a natureza do interior de Marte. Se o interior de Marte tiver um núcleo líquido, os bamboleios serão diferentes, assim como a propagação das ondas sísmicas. E se tiver mesmo, qual a extensão dele? Qual o tamanho desse núcleo em relação ao resto? Você pode ver um infográfico muito legal nesta reportagem aqui.

Se tudo der certo, a Insight deve pousar às 17:54 (horário de Brasília) e seu primeiro sinal de vida deverá ser emitido às 18:01. Vai levar pelo menos 8 minutos para esse sinal chegar à Terra e só aí saberemos se de fato ela está viva. Logo em seguida ao pouso a sonda deverá abrir seus painéis solares, mas essa informação só poderá ser confirmada de fato às 23:35, quando a sonda Mars Odyssey sobrevoar a área do pouso. É possível que a primeira imagem da InSight em solo só chegue amanhã.

Mas também é possível que algumas imagens da sonda entrando na atmosfera de Marte sejam enviadas quase em tempo real (descontados os 8 minutos de distância). É que a sonda está sendo seguida por dois cubesats do tamanho de uma valise de mão. Os dois cubesats vão fotografar essa etapa da missão e vão enviar as imagens de volta para a Terra.

Apesar do grande sucesso da NASA em conseguir pousar suas sondas nos tempos recentes, é bom lembrar que o índice de sucesso, quando falamos do planeta vermelho, é da ordem de 40%. Por isso, toda torcida é bem-vinda!

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Publicado originalmente no site G1 GLOBO, em 26/11/2018 

Sonda da Nasa pousa em Marte após sete meses de viagem

Esta é a oitava vez que a Nasa consegue pousar uma sonda no planeta.

Por G1

 Cientistas da Nasa comemoram pouso de sonda em Marte
Foto: Nasa 

A sonda Mars InSight, da Nasa, pousou em Marte nesta segunda-feira (26) após sete meses de viagem. A sonda é a primeira capaz de captar terremotos e estudar o funcionamento interno do planeta. Esta é a oitava vez que a Nasa consegue fazer um pouso em Marte.

Nova sonda em Marte vai fazer uma espécie de 'ultrassom' do planeta; entenda
Minutos após o pouso, a sonda conseguiu enviar uma imagem do local em que mostra o horizonte e algumas manchas de poeira na lente.

Primeira imagem enviada pela sonda Insight de Marte 
Foto: Nasa/via AP 

A nave espacial não tripulada foi lançada há quase sete meses e percorreu 482 milhões de km. Parte de sua missão é informar dos esforços para enviar algum dia exploradores humanos ao planeta vermelho — algo que a Nasa espera concretizar na década de 2030.

A InSight não tem capacidade de detectar vida no planeta — isso será deixado para os futuros robôs. A missão da agência em 2020, por exemplo, irá coletar rochas que possam conter evidências da vida antiga.

Este pouso em Marte é o primeiro desde 2012, quando o explorador Curiosity da Nasa pousou na superfície e analisou as rochas em busca de sinais de vida que possa ter habitado o planeta vizinho da Terra, agora gélido e seco.

NASA pousa em Marte primeira sonda a explorar as profundezas do planeta

A InSight, de 993 milhões de dólares, sobreviveu à difícil entrada na atmosfera do planeta vermelho, viajando a uma velocidade de 19.800 km/h e reduzindo rapidamente a velocidade a apenas 8 km/h.

"Nós estudamos Marte da órbita e da superfície desde 1965 — aprendendo sobre o tempo, atmosfera, geologia e química de superfície", afirmou Lori Glaze, diretora em exercício da divisão de ciência planetária da direção de missões científicas da Nasa.

"Agora iremos finalmente explorar dentro de Marte e aprofundar nosso entendimento do nosso vizinho terrestre, enquanto a Nasa se prepara para enviar exploradores humanos mais fundo dentro do sistema solar".

Textos e imagens (das três postagens) reproduzidos do site: g1.globo.com/ciencia