quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Cientistas encontram água em atmosfera de planeta...

Representação artística do K2-18b, o único exoplaneta 
conhecido com água e temperatura que poderiam gerar vida.
Foto: ESA/Hubble/AFP

Publicado originalmente no site G1 GLOBO, em 11 de setembro de 2019

Cientistas encontram água em atmosfera de planeta potencialmente habitável fora do Sistema Solar

É a primeira que vez que os pesquisadores encontram a substância no K2-18b.

Por France Presse

Astrônomos encontraram vapor d'água pela primeira vez na atmosfera do planeta K2-18b, localizado em uma "zona habitável" do espaço. Esta é uma nova etapa para a busca de vida fora do Sistema Solar.

As características do exoplaneta ainda não são muito conhecidas. De qualquer forma, ele está localizado a 100 anos-luz da Terra e, desde seu descobrimento, o o K2-18b se tornou o "melhor candidato" para a busca de vida extraterrestre, de acordo com estudo publicado nesta quarta-feira (11) na revista "Nature Astronomy".

"Encontrar água em um mundo potencialmente habitável (...) nos aproxima de uma resposta para a pergunta fundamental: a Terra é única?", disse Angelos Tsiaras, coautor da pesquisa e professor da University College of London.

A pesquisa utilizou informações do telescópio espacial Hubble, entre os anos de 2016 e 2017. "Elas nos permitiram descobrir que o planeta possui uma atmosfera e que ela contém vapor de água: duas boas notícias com relação à habitabilidade do planeta", explicou Giovanna Tinetti, também coautora do estudo.

"Ainda não é possível deduzir se há água líquida na superfície deste exoplaneta, mas acredito que é muito possível", completou a astrofísica.

O K2-18b está situado na zona habitável de seu sistema – ou seja, não está longe nem perto demais do "Sol" de sua região do espaço. Acredita-se que a temperatura vá permitir a água em estado líquido, característica que pode ajudar no desenvolvimento da vida como conhecemos. Esse exoplaneta tem o clima parecido com o da Terra.

O primeiro de uma série

Encontrado em 2015 pelo telescópio espacial Kepler, da agência espacial americana (Nasa), o exoplaneta está ao redor da estrela K2-18, situada a 110 anos-luz do Sistema Solar (um ano luz equivale a 9,46 bilhões de km).

O planeta K2-18b é oito vezes maior do que a Terra e, por isso, pode ser chamado de "superterra", assim como todos os exoplanetas com uma massa até 10 vezes a do nosso planeta. Ele tem uma composição semelhante à Terra, mas também substâncias de Marte e Vênus.

Há uma década, a ideia de encontrar água na atmosfera de planetas potencialmente habitáveis pertencia à ficção científica. Estamos distantes, entretanto, de saber se estamos sozinhos ou não no universo.

"Com todas as supernovas que esperamos descobrir nas próximas décadas, com certeza tratamos do primeiro de uma série de planetas habitáveis", disse Ingo Waldmann, que assina a pesquisa.

NASA

Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com

domingo, 21 de julho de 2019

50 anos da chegada do homem à Lua

Buzz Aldrin na Lua em 21 de julho de 1969

Publicado originalmente no site da revista ISTOÉ, em 20/07/2019

Estados Unidos comemoram 50 anos da chegada do homem à Lua

Por AFP

Há 50 anos, os astronautas americanos Neil Armstrong e Buzz Aldrin se tornaram os primeiros humanos a pisar na Lua, um feito transmitido pela televisão para cerca de 500 milhões de pessoas.

O módulo lunar (LEM), conhecido como Eagle (Águia), pousou no satélite em 20 de julho de 1969 às 20h17 GMT (17h17 de Brasília), embora alguns documentos da Nasa indiquem que isso aconteceu um minuto depois, às 20h18 GMT.

Pouco mais de seis horas depois, às 02h56 GMT (23h56), o major Armstrong colocou o pé esquerdo na superfície lunar e pronunciou a frase pela qual ele sempre será lembrado: “É um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade”.

A agência espacial americana marcou neste sábado o momento exato do primeiro pouso na Lua da história, emitindo a gravação da transmissão ao vivo daquele acontecimento.

“Houston, aqui Base Tranquilidade. A Águia pousou”, disse o comandante da missão Apollo 11, falecido em 2012.

“Em retrospectiva, chegar à Lua não era só o nosso trabalho, era uma oportunidade histórica para mostrar ao mundo o espírito positivo dos Estados Unidos”, tuitou Edwin “Buzz” Aldrin, de 89 anos, antes de subir em um avião com destino ao Centro Espacial Kennedy, na Flórida, de onde decolou em 16 de julho de 1969.

“O dia de hoje pertence a vocês”, acrescentou.

A Nasa se preparava para o aniversário há semanas, com inúmeras exposições e eventos nos centros espaciais da Flórida (Kennedy) e Houston, Texas (Johnson).

O vice-presidente americano, Mike Pence, deu um discurso no Centro Kennedy, em Cabo Canaveral, o lugar de onde decolaram Armstrong, Aldrin e Michael Collins rumo à Lua.

“Hoje nossa nação homenageia três astronautas corajosos”, declarou Pence, ao lado de Aldrin. “Apollo 11 é o único evento do século XX que tem uma possibilidade de ser amplamente recordado no século XXX”, acrescentou.

Os festejos reanimaram o debate público sobre o projeto atual da agência espacial, chamado Artemis, para regressar à Lua em 2024.

– Projeto Artemis –

Mas o futuro de Artemis – batizado em homenagem à deusa grega, irmã gêmea de Apollo – dependerá da vontade do Congresso para aumentar o orçamento da Nasa, de cerca de 21 bilhões de dólares por ano, algo que parece pouco provável.

A eleição presidencial de novembro de 2020 poderia também resultar essencial para o futuro do projeto, cujos objetivos incluem colocar pela primeira vez uma mulher na superfície lunar.

Muitos especialistas, incluindo alguns dentro da Nasa, consideram que será impossível voltar à Lua antes de 2024, a data estabelecida pelo governo de Donald Trump.

Tanto o foguete como a cápsula para a tripulação e a estação orbital, elementos-chave da missão, sofreram atrasos e falta muito para que estejam prontos para voar.

Pence aproveitou a ocasião para anunciar que a cápsula Orion que levará os astronautas à Lua havia sido fabricada. Mas segundo seu fabricante, Lockheed Martin, ainda são necessários vários meses de testes antes de que esteja pronta para o lançamento.

Tanto Aldrin como Michael Collins, o terceiro tripulante da Apollo 11 que permaneceu na órbita da Lua, participaram deste debate, ajudando Trump, que criticou a agência espacial.

Entrevistado na sexta-feira pela Fox News, a rede de notícias favorita do mandatário, Aldrin se mostrou crítico com a Nasa: “Não desenvolvemos os foguetes nem as naves de alto desempenho necessárias”.

Trump recebeu, na sexta, os dois astronautas do Apollo 11 no Salão Oval da Casa Branca, e aproveitou a ocasião para contradizer o chefe da Nasa, Jim Bridenstine, também presente.

Após Bridenstine explicar as razões técnicas pelas quais é preciso voltar à Lua antes de tentar fazer humanos pousarem em Marte, Trump perguntou a Collins o que ele pensava sobre isso, e o veterano de 88 anos respondeu sem hesitar: “Direto para Marte”.

“Parece-me que é direto para Marte, quem sabe mais que estas pessoas?”, disse então Trump, que declarou recentemente que seu objetivo é plantar bandeira no planeta vermelho, o que a Nasa tem previsto fazer na década de 2030.

“Meu governo tem o compromisso de restabelecer o domínio e a liderança da nossa nação no espaço pelos próximos séculos”, disse Trump em uma mensagem divulgada neste sábado pela Casa Branca.

Desde o fim do programa Apollo, que pousou a última dupla de astronautas no satélite em dezembro de 1972, vários presidentes anunciaram o relançamento do programa espacial americano.

Mas a brecha entre as ambições e a realidade orçamentária condenou esses projetos.

Texto e imagem reproduzidos do site: istoe.com.br

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Físico e astrônomo brasileiro Marcelo Gleiser...


Publicado originalmente no site G1 Globo, em 19/03/2019 

Físico e astrônomo brasileiro Marcelo Gleiser é o vencedor do Prêmio Templeton 2019

Por G1

Ele é o primeiro latino-americano a ganhar o prêmio, criado em 1972, e vai receber 1,1 milhão de libras esterlinas, o equivalente a R$ 5,5 milhões. A cerimônia de premiação será em 29 de maio, em Nova York.

"[Ele é] Um dos principais proponentes da visão que ciência, filosofia e espiritualidade são expressões complementares que a humanidade precisa para abraçar o mistério e explorar o desconhecido", diz Heather Templeton Dill, presidente da fundação John Templeton, no vídeo que anuncia o premiado (veja abaixo).

Gleiser tem 60 anos e vive atualmente nos Estados Unidos, onde ensina física e astronomia no Dartmouth College, em Hanover, New Hampshire.

Ele já teve mais de 100 artigos revisados e publicados até o momento e pesquisas sobre o comportamento de campos quânticos e partículas elementares e a formação inicial do universo, a dinâmica das transições de fase, a astrobiologia e as novas medidas fundamentais de entropia e complexidade baseadas em teoria da informação. Agnóstico, seu trabalho se destaca por demonstrar que ciência e religião não são inimigas.

"A compreensão e a exploração científica não é apenas sobre a parte material do mundo. Minha missão é trazer para a ciência e para os interessados na ciência esse apego ao mistério. Fazer o público entender que ciência é apenas mais uma maneira de entendermos quem somos", disse Gleiser no vídeo que anuncia o prêmio.

'A ciência não mata Deus'

"O ateísmo é inconsistente com o método científico", afirmou Gleiser à AFP na segunda-feira no Dartmouth College da Universidade de New Hampshire, onde é professor desde 1991. "Devemos ter a humildade para aceitar que estamos cercados de mistério".

Sobre a teoria religiosa de criação da Terra em sete dias, Gleiser diz que não há inimigos. "Eles consideram a ciência como o inimigo, porque têm um modo muito antiquado de pensar sobre ciência e religião, no qual todos os cientistas tentam matar Deus", disse.

"A ciência não mata Deus", completa.

Gleiser fundou em 2016 o ICE (Instituto de Engajamento à Interdisciplinariedade) em Dartmouth, com a ideia de promover o diálogo construtivo entre as ciências naturais e humanas, seja na esfera pública ou acadêmicas. O instituto tem apoio da fundação John Templeton.

Em 2006, ele apresentou a série de 12 episódios 'Poeira das Estrelas', no Fantástico.

Prêmio Templeton

O prêmio Templeton foi criado para "servir como um catalisador filantrópico para descobertas relacionadas às questões mais profundas que a humanidade enfrenta", de acordo com a instituição. A Fundação apoia pesquisas que vão desde a complexidade, evolução e emergência até a criatividade, perdão e livre-arbítrio.

g1.globo.com

De acordo com a fundação responsável pelo prêmio, Gleiser foi o escolhido pelo conjunto do seu trabalho que, ao longo dos anos, evoluiu para a quebra de simetria, transições de fase e estabilidade de sistemas físicos, conceitos que influenciariam sua crítica às "teorias de tudo".

"O prêmio celebra o trabalho de muitos indivíduos maravilhosos, incluindo alguns dos grandes físicos e cientistas de nosso tempo, cujas pesquisas exploraram questões de significado e valor além dos limites tradicionais de suas disciplinas. Pensar que um dia eu seria incluído em um grupo distinto, sendo um imigrante do Brasil, é inacreditável ", disse Gleiser no site do Dartmouth College.

Além de Gleiser, a fundação já premiou 48 pessoas desde que foi criada em 1972. Entre eles estão Madre Teresa (1973), Dalai Lama (2012) e o Arcebispo Desmond Tutu (2013).

Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Eclipse de Sobral: Evento comprovava a teoria de Einstein

Os cientistas registraram o eclipse em placas 
a partir da observação do telescópio 
Foto: Divulgação/ Observatório Nacional

Publicado originalmente no site da revista GALILEU, em 29/05/2019

Eclipse de Sobral: há 100 anos, evento comprovava a teoria de Einstein

Fenômeno ocorrido na cidade de Sobral, no interior do Ceará, comprovou a relatividade geral e alçou o cientista Albert Einstein ao estrelato

Por A. J. de Oliveira | Edição Maria Luísa Barsanelli 

No dia 29 de maio de 1919, o céu amanheceu nublado sobre a cidade cearense de Sobral, a 230 quilômetros da capital, Fortaleza. Tivesse o Sol permanecido encoberto, o esforço da comitiva de astrônomos teria sido em vão. Perderiam o eclipse total e a chance de provar que as ideias de Albert Einstein eram corretas.

Mas, pouco antes das 9 h, uma brecha entre as nuvens revelou o momento em que o disco solar foi obscurecido pela Lua. Muita gente acompanhava o fenômeno nas praças da cidade, e as reações foram as mais diversas.

Sobralenses amedrontados buscaram refúgio na igrejinha, temendo o Juízo Final. Os galos ao redor, confusos, cantaram pensando que já era noite. Enquanto isso, os cientistas tentavam extrair o máximo de resultados dos instrumentos de alta precisão montados num misto de observatório e laboratório improvisado no coração de Sobral. Os brasileiros se concentravam no estudo da coroa solar; os britânicos tiravam fotos. Muitas fotos.

Cinco minutos e treze segundos mais tarde, o Sol voltou a brilhar. Aquele eclipse não tinha nada de tão especial, mas acabou eternizado na história da ciência como um dos mais importantes de todos os tempos. Foi uma espécie de rito de passagem. Com os resultados, comprovaram-se as arrojadas ideias relativísticas de Albert Einstein, que substituíram o mecanicismo clássico de Isaac Newton como a melhor explicação do Universo.

O século 20 nunca mais foi o mesmo. “Foi um momento de mudança revolucionária, dizer que esse modelo de universo newtoniano incrivelmente importante não era, na realidade, o correto”, diz o britânico Richard Dunn, pesquisador da Universidade de Leicester e curador das exposições de história da ciência do Observatório de Greenwich. “Essa expedição foi vista como um teste crucial.” Meio sem querer, a pequena Sobral ganhou fama internacional por ser palco da comprovação da Teoria da Relatividade Geral.

População de Sobral observa o trabalho dos cientistas
Foto: Divulgação/Observatório Nacional

Dunn veio ao Brasil para proferir uma palestra sobre o eclipse de Sobral em outubro do ano passado. O evento, realizado no Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), no Rio de Janeiro, abriu as comemorações do centenário do fenômeno astronômico, que acontece em maio.

Talvez não por acaso, 2019 foi proclamado o Ano Brasil-Reino Unido de Ciência e Inovação pelo governo dos dois países — o evento no Mast integrou o calendário de atividades. “Podemos fazer boas parcerias nesse sentido: nós com nossa criatividade e a Inglaterra com sua tradição em pesquisa”, diz a física Anelise Pacheco, diretora do museu. “Sem cooperação, inexiste ciência.” A afirmação é tão verdadeira hoje quanto era em 1919.

Na época, foi necessária uma intensa colaboração entre ingleses e brasileiros para garantir o êxito da expedição. O arquiteto por trás da empreitada foi o astrônomo inglês Arthur Eddington, da Royal Astronomical Society (RAS). Com o auxílio de Henrique Morize, então diretor do Observatório Nacional (ON), Sobral foi escolhida por ter a melhor visibilidade do eclipse. Morize garantiu suporte logístico e a montagem de uma estação meteorológica no local para evitar que as condições climáticas estragassem os resultados.

Outra comitiva britânica foi enviada à costa africana para documentar o evento na Ilha do Príncipe, local também com observação privilegiada. Os ingleses Andrew Crommelin e Charles Davidson viajaram para Sobral, e os colegas Arthur Eddington e Frank Dyson foram a Roça Sundy, em Príncipe, onde o tempo não colaborou.

Ambas as expedições partiram da Inglaterra no dia 8 de março. Crommelin e Davidson chegaram a Sobral cerca de um mês antes do eclipse. Com eles estavam as placas fotográficas que provariam a teoria de Einstein.

Eclipse solar total de Sobral (CE)
Foto: F. W. Dyson, A. S. Eddington, 
and C. Davidson/Wikimedia Commons

Um século depois, pouquíssimos duvidam da relatividade geral. Mas, naquela época, o modelo einsteiniano ainda dava seus primeiro passos e era encarado com descrença pela comunidade científica, já que não havia sido provado. Publicada em 1916, a teoria levou oito anos para ficar pronta: foi o tempo que Einstein precisou para generalizar os postulados da relatividade especial, de 1905, e incluir a gravidade na jogada.

De acordo com a teoria do alemão, o espaço e o tempo formam um único tecido, um contínuo maleável que é distorcido por corpos de muita massa como um buraco negro, um aglomerado de galáxias ou o Sol. Nem mesmo a luz escapa: quando os fótons atravessam regiões distorcidas do Universo, suas trajetórias sofrem um desvio.

Os eclipses solares totais forneciam as condições perfeitas para testar a previsão de Einstein. Com a Lua bloqueando o brilho ofuscante do Sol, tornava-se possível enxergar (e fotografar) as estrelas próximas a ele.

Placa com o registro do eclipse 
Foto: Observatório Nacional

Por estarem quase encobertos pelo Sol quando vistos da Terra, os raios das estrelas atravessariam o espaço-tempo distorcido pelo campo gravitacional do Sol — um desvio que podia ser verificado. O segredo era fotografar essas estrelas durante o eclipse e, um tempo depois, clicá-las novamente quando estivessem na mesma região do céu, mas sem a interferência solar. Foi justamente o que a delegação britânica fez em Sobral. “Eles procuravam variações comparáveis aos mais finos fios de cabelos humanos”, explica Dunn. Precisavam de estabilidade e rigor extremos nos instrumentos para produzir resultados confiáveis.

O segundo conjunto de fotos foi tirado em julho do mesmo ano. De acordo com a teoria de Einstein, a comparação dos registros deveria ter uma diferença de 1,75 segundo de arco, enquanto a de Newton previa um número bem menor, de 0,86. Um segundo de arco equivale ao tamanho de uma estrela a olho nu. “Passaram os meses seguintes analisando aquelas placas e conseguiram centenas de páginas de cálculos baseados nas fotos”, diz Dunn. Em novembro, os olhos do mundo se voltaram para Londres, onde cientistas anunciaram que Einstein estava certo.

Prelúdio e legado

Antes do evento em Sobral, pesquisadores de vários países organizaram expedições para acompanhar eclipses totais do Sol. Todas fracassaram. Uma delas, inclusive, foi no Brasil, na cidade mineira de Passa Quatro, em 1912.

Mas as coisas acabaram acontecendo na hora certa, diz a astrofísica Patrícia Spinelli, do Mast. “Se o de Passa Quatro tivesse sido o eclipse da comprovação, não teria dado a fama que Sobral deu a Einstein.” À época da expedição em Minas Gerais, boa parte da relatividade geral ainda estava confinada à mente do físico. “Quando os céus se abriram em 1919, a teoria já estava completa e pôde ser comprovada.”

E não foi só Einstein que se beneficiou: as ciências britânica e brasileira enriqueceram-se muito. A expedição ficou marcada na trajetória da Royal Astronomical Society. Segundo Robert Massey, membro da diretoria executiva da RAS, foi uma das poucas ocasiões em que a organização se envolveu em todas as etapas de uma campanha.

A equipe que participou da expedição a Sobral 
Foto: Divulgação/Observatório Nacional

Hoje, fica claro que o legado não se limita à ciência — deixou também uma rica bagagem cultural no país. No acervo do Mast existem 3 mil peças relacionadas ao eclipse, que incluem documentação e instrumentos, como telescópios. Para celebrar o centenário, a instituição abrirá uma mostra.

Em Sobral, há uma movimentação intensa para a data. Até o centenário, a cidade cearense quer lançar um selo comemorativo, conduzir sessões na Assembleia Legislativa do Ceará e no Senado Federal e montar uma exposição no Congresso Nacional, além de reabrir seu planetário, inaugurar uma estátua de Einstein e lançar a pedra fundamental do Monumento da Luz.

“Isso deveria inspirar as pessoas a falar: ‘Sabia que aqui tivemos uma das maiores descobertas científicas da história?”, diz Massey. É um sentimento que permanece tão atual e verdadeiro quanto as ideias de Einstein.

PERSONAGENS DA OBSERVAÇÃO
Conheça quatro dos pesquisadores envolvidos

Andrew Crommelin (1865-1939)
Matemático e astrônomo-assistente do Observatório Real de Greenwich

Charles Davidson (1875-1970)
Computador (calculista) júnior do Observatório Real de Greenwich

Arthur Eddington (1882-1944)
Astrônomo, físico e matemático, era diretor do Observatório de Cambridge

Edwin Cottingham (1869-1940)
Fabricava relógios de altíssima precisão para pesquisas astronômicas

A JORNADA DO ECLIPSE
Entenda a trajetória e conheça os integrantes das expedições que documentaram o fenômeno

8/3/1919
Ambos os grupos partem do porto de Liverpool a bordo do navio SS Anselm. Na Ilha da Madeira, os astrônomos se dividem.

23/3/1919
É em Belém que Crommelin e Davidson chegam ao Brasil. Com tempo, vão a Manaus para conhecer a Floresta Amazônica.

23/4/1919
Eddington e Cottingham desembarcam na Ilha do Príncipe e, cinco dias depois, em Roça Sundy, seu ponto de observação.

30/4/1919
Crommelin e Davidson chegam a Sobral e escolhem a pista do Jockey Clube para montar os instrumentos.

29/5/1919
Sobral amanhece nublado, mas uma brecha no céu permite as medições.

9/7/1919
Após um tempo em Fortaleza, Crommelin e Davidson voltam a Sobral para fotografar as mesmas estrelas, só que sem a interferência do Sol.

6/11/1919
Os resultados foram revelados ao mundo: apontaram que o desvio pendia mais para as predições de Einsten que para as de Newton.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistagalileu.globo.com

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Dia histórico p/ciência: Primeira imagem de buraco negro

Primeira foto de um buraco negro supermassivo 
no centro da galáxia M87 feita pelo projeto
Event Horizon Telescope

Dia histórico para a ciência: revelada a primeira imagem de buraco negro

Event Horizon Telescope, rede de oito observatórios ao redor do mundo, divulgou hoje a primeira imagem real de um buraco negro supermassivo, fenômeno previsto por Einstein

Por Luiza Caires (Editorias: Ciências Exatas e da Terra)

S Se você está lendo este texto, está entre as pessoas de sorte que viveram para ver uma imagem histórica para a ciência. Acaba de ser revelada a primeira foto de um buraco negro supermassivo no centro de Messier 87, uma enorme galáxia no aglomerado de Virgem. Este buraco negro está a 53,5 milhões de anos-luz da Terra e tem uma massa de 6,5 bilhões de vezes a massa do Sol. Esses monstros cósmicos conhecidos como buracos negros são pequenos, considerando a escala universal, mas com uma massa imensa a ponto de gerar um efeito gravitacional gigantesco. E que torna impossível a luz escapar deles – daí o nome que recebem. Mas para entender o tamanho do feito da equipe do Event Horizon Telescope, rede de oito observatórios ao redor do mundo, vamos voltar um pouco no tempo.

O ano é 1975, e um jovem cientista chamado João Steiner acaba de defender o seu mestrado no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. A dissertação Um modelo para Cygnus X-1 trata da primeira fonte de raios X, identificada na constelação do Cisne, aceita como uma candidata a buraco negro. Até bem pouco tempo antes, esses objetos singulares eram no máximo uma teoria bem construída, quando uma prova indireta de sua existência – Cygnus X-1 – fora revelada.

Passamos para 1995, ano da descoberta de um disco em torno da galáxia NGC 4258, que só a existência de um buraco negro poderia explicar. Pouco tempo depois, em 2002, é descoberta uma estrela chamada S2, aqui na Via Láctea. Novamente, as características da órbita de S2 só poderiam ser explicadas se o objeto invisível ao redor do qual a estrela se movimenta fosse um buraco negro. Depois desta observação, praticamente não havia mais quem, na comunidade científica, duvidasse da existência dos buracos negros.

Professor João Steiner: imagem exibe fenômeno 
previsto pela Teoria da Relatividade Geral, de Einstein, 
além de ser um feito tecnológico extraordinário
Foto: Luiza Caires

Antes disso, porém, não era desprezível o número de cientistas céticos quanto à realidade destes objetos diretamente invisíveis. Para Steiner, contudo, muito tempo antes, as evidências dos buracos negros já eram sólidas o suficiente para não abalar sua confiança. Nem mesmo na década de 70, quando um pesquisador norte-americano mais experiente que dava aula no IAG alfinetou o então cientista em início de carreira, saindo da sala onde o astrofísico acabava de defender sua dissertação: “Eu não acredito em buracos negros, isso não existe”, disse Charles Dean.

Pulamos para 2019, ano em que é apresentada a primeira foto de um buraco negro. Agora, um dos maiores estudiosos no Brasil do fenômeno, Steiner sorri ao relembrar a história. “Faz parte. É saudável haver ceticismo na comunidade científica”, diz ele. Mas ressalva: “Somente até que as evidências sejam indiscutíveis. Não dá para ser cético diante de evidências acumuladas por décadas, como é o caso do aquecimento global, por exemplo”.

Nesta quarta-feira, 10 de abril, o professor do IAG se revezou entre o evento organizado no instituto para retransmitir a coletiva do Event Horizon Telescope (EHT) e uma reunião acadêmica, marcada (sob alguns protestos) para o mesmo horário. A afirmação do diretor do projeto EHT, Sheperd Doeleman, explica os protestos de quem queria acompanhar o evento, e resume seu impacto: “Nós tiramos a primeira foto de um buraco negro”, disse. “Este é um extraordinário feito científico realizado por uma equipe de mais de 200 pesquisadores”, comemorou Doeleman durante uma das conferências de imprensa simultâneas em todo o mundo em que o EHT revelou o sucesso da empreitada, exibindo a primeira evidência visual direta de um buraco negro supermassivo e sua sombra.

Radiotelescópios captaram a radiação que foi processada
para formar a imagem: uma silhueta do buraco negro 
supermassivo que fica em outra galáxia 
Foto: Jonathan Weintroub/Eventhorizontelescope.org

“Conseguimos algo que se presumia impossível apenas há uma geração”, concluiu Doeleman. “Avanços na tecnologia, conexões entre os melhores observatórios de rádio do mundo e algoritmos inovadores se uniram para abrir uma janela totalmente nova sobre os buracos negros e o horizonte de eventos.”

Rodrigo Nemmen, professor do IAG que pesquisa buracos negros e organizou a transmissão da coletiva no Brasil, ecoa a empolgação. “Estou eletrizado. Vamos desfrutar deste momento. É a primeira vez que a nossa espécie fez uma fotografia de um dos objetos mais assombrosos do universo. Este tipo de coisa acontece só uma vez na história.”

Como isso foi possível?

O Event Horizon Telescope tem seus radiotelescópios espalhados pelo planeta, apontando para dois buracos negros supermassivos: Sagitário A*, localizado no centro da Via Láctea, e um buraco negro ainda mais massivo, porém mais distante: 53,5 milhões de anos-luz de distância na galáxia M87 – foi este último que teve sua imagem revelada.

Rodrigo Nemmen, professor do IAG: 
um dia eletrizante para os cientistas 
Foto: Ana Paula Tauhyl

Há exatamente dois anos, em abril de 2017, a rede se uniu para observar o chamado horizonte de eventos desses buracos negros. Trata-se do limite até onde a luz consegue passar próxima ao buraco sem ser sugada por sua força gravitacional extrema. Se nem a luz pode escapar, além do horizonte de eventos tudo é escuridão. Mas junto com gás, poeira e átomos se chocando em velocidades extremas, as micro-ondas do disco de gás que fica em volta do buraco (o chamado disco de acreção) formam um anel de radiação que pode ser captada para nos mostrar os contornos do buraco negro. E é isso que mostra a imagem, obtida a partir do cruzamento dos dados dos observatórios.

Não bastava, no entanto, captar essa radiação. O processamento dos dados obtidos pela interferometria das ondas captadas através de cada um dos telescópios exigiu tecnologia robusta e o trabalho de um grupo enorme de cientistas, por dois anos. Por isso, só agora as imagens foram apresentadas.

O que estamos vendo?

A imagem capturou a sombra do buraco negro no interior do disco de material brilhante que a acompanha. Por causa da gravidade intensa perto de um buraco negro, a trajetória da luz mostrada na imagem, correspondendo à radiação do disco, é deformada em torno do horizonte de eventos e aparece na forma de um anel. A imagem é mais brilhante de um lado do que do outro porque o disco de acreção está girando ao redor do buraco negro: um efeito relativístico semelhante ao efeito Doppler (distorção observada em ondas que são emitidas por uma fonte em movimento) faz com que o lado do disco que gira na direção da Terra pareça mais brilhante, enquanto que o mesmo efeito faz com que o lado do disco que está se afastando da Terra pareça mais escurecido.

O que vamos fazer com isso?

Essa foto com certeza será emoldurada e pendurada em salas de muitos cientistas ao redor do mundo – além de ajudar a popularizar as pesquisas científicas num momento em que a ciência está sob ataques. Mas sua importância vai muito além disso. A primeira imagem real de um buraco negro vai ajudar astrônomos e físicos a entender melhor esses objetos misteriosos. Se existem aprimoramentos a serem feitos nas teorias de Albert Einstein, o melhor fenômeno do Universo para conhecê-los é um buraco negro supermassivo cuja existência, inclusive, ele previu. “Fazer imagens do horizonte de eventos é uma importante confirmação da teoria da relatividade geral de Albert Einstein”, diz Steiner.

Rede de oito observatórios ao redor do mundo, 
inclusive no Polo Sul, permitiu a observação da
imagem do buraco negro em M87
Mapa: EHT em The Astrophysical Journal Letters

A teoria da relatividade geral prediz a deformação do espaço-tempo por objetos de alta massa, além de prever a existência de buracos negros, os objetos mais densos do Universo. Dessa forma, a curvatura que eles criariam seria tão grande que, a partir de um certo ponto chamado horizonte de eventos, nem a luz conseguiria escapar. Por isso, se a teoria estiver correta, os buracos negros deveriam ser observados como regiões aproximadamente circulares sem qualquer emissão de radiação. Ou seja, o que veríamos seria apenas a matéria orbitando ao redor do horizonte de eventos. E é exatamente isso que a imagem do EHT nos mostrou.

Além disso, o professor do IAG destaca que a massa do buraco negro calculada a partir da imagem está bem próxima dos resultados obtidos por outros meios, o que valida metodologias importantes para as pesquisas da astrofísica. Por fim, ele também ressalta que o grau de resolução da imagem apresentada “é um feito tecnológico extraordinário”.

A conquista do EHT também foi anunciada em uma série de seis artigos que acabam de ser publicados em uma edição especial do The Astrophysical Journal Letters.

Por: Luiza Caires
Consultoria científica: Natália Del Coco

Texto e imagens reproduzidos do site: jornal.usp.br

sábado, 5 de janeiro de 2019

Sonda chinesa pousa no lado oculto da Lua...

Imagem feita pela Chang'e 4 durante a chegada à Lua.
Foto: China National Space Administration/Xinhua News Agency via AP

Publicado originalmente no site G1, em 03/01/2019

Sonda chinesa pousa no lado oculto da Lua pela primeira vez na história

Com a missão, país se coloca em destaque na corrida espacial. Objetivo é estudar a composição dessa parte do satélite, que não pode ser vista da Terra.

Por G1

A sonda espacial chinesa Chang'e 4 pousou, nesta quinta-feira (3), no lado oculto da Lua — a parte do satélite que não é visível da Terra. Segundo a Administração Nacional Espacial da China, é a primeira vez na história que este pouso é realizado. As informações são das agências de notícias EFE, Associated Press, e da Rede Global de Televisão da China (CGTN, em inglês).

A nave, que tem um módulo e um 'rover' — veículo de exploração espacial — deve estudar a composição mineral, o terreno, relevo e a manta da superfície lunar, a camada abaixo da superfície. Também deve realizar observações astronômicas por meio de baixas frequências de rádio, a chamada radioastronomia.

"O lado oculto da Lua é um raro lugar calmo, que está livre da interferência de sinais de rádio vindos da Terra", afirmou o porta-voz da missão, Yu Gobin, segundo a agência de notícias estatal Xinhua News. "Essa sonda pode preencher o vazio de observação de baixa frequência na radioastronomia, e irá fornecer informações importantes para estudar a origem das estrelas e da evolução da nébula [solar]".

A alunagem [aterrissagem na superfície lunar], realizada às 0h26 (horário de Brasília), "abriu um novo capítulo na exploração humana da Lua", afirmou a agência espacial chinesa. O local exato do pouso foi a cratera Von Karman, no polo sul lunar, que tem 186 quilômetros de diâmetro e 13 quilômetros de profundidade. Segundo a AP, cientistas chineses acreditam que pousar nessa cratera possibilitaria coletar novas informações sobre a manta da Lua.

O lado oculto da Lua é relativamente pouco explorado e tem uma composição diferente daquela do lado "próximo", que pode ser visto da Terra, e onde outras naves já pousaram. Países como a antiga União Soviética, os Estados Unidos e até mesmo a própria China já haviam realizado missões desse tipo.

De acordo com a Nasa, a agência espacial americana, essa parte do satélite foi observada pela primeira vez em 1959, quando a nave soviética Luna 3 enviou as primeiras imagens. Em 1962, os Estados Unidos tentaram enviar uma missão não tripulada ao lado oculto da Lua, que não deu certo, segundo a EFE.

China no espaço

Foguete Long March-3B, que carrega a sonda lunar 
Chang'e 4, decola do Centro de Lançamento de Satélites 
Xichang em dezembro de 2018
Foto: Reuters

A Chang'e 4 foi lançada no dia 8 de dezembro do ano passado pelo foguete Long March 3B, do Centro de Lançamento de Satélites de Xichang, na província de Sichuan. Quatro dias mais tarde, a sonda entrou na órbita lunar. As comunicações entre a sonda e a Terra são possíveis graças a um satélite, Queqiao, posto em órbita em maio de 2017 e que funciona como um transmissor "espelho" de informações entre os centros de controle na Terra e Chang'e 4.

Blog do Cássio Barbosa: 2019: o ano da Lua!

O objetivo do programa Chang'e, que começou com o lançamento de uma primeira sonda orbital em 2007, é uma missão tripulada à Lua a longo prazo, ainda sem data definida. A primeira missão espacial tripulada da China foi em 2003 — o terceiro país a realizar uma depois de Rússia e Estados Unidos. O país também colocou duas estações espaciais em órbita e planeja lançar um 'rover' em Marte no meio da década de 2020.

Em 2013, a Chang'e 3, a nave predecessora da missão atual, fez o primeiro pouso na Lua desde a Luna 24, lançada pela União Soviética em 1976. Os Estados Unidos são o único país que conseguiu mandar uma pessoa à Lua.

O programa espacial chinês sofreu um revés no ano passado, quando o lançamento do foguete Long March 5 falhou. Por enquanto, a China planeja enviar a sonda Chang'e 5 à Lua no ano que vem e trazê-la de volta à Terra com amostras — algo que não foi feito desde a missão soviética de 1976.

A chegada da Chang'e 4 marca as ambições chinesas de rivalizar com os EUA, a Rússia e a Europa no espaço — e, mais amplamente, de solidifcar a posição da China como um poder regional e global.

"O sonho do espaço é parte do sonho de tornar a China mais forte", afirmou o presidente Xi Jinping já em 2013, pouco depois de chegar ao poder.

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com/ciencia-e-saude

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Geneticistas condenam cientista que editou genes...

Manipular o DNA e seus dilemas éticos

Geneticistas condenam cientista que editou genes em embriões

Pesquisa é “irresponsável e preocupante”, afirmam especialistas reunidos em congresso internacional sobre o tema

Por Radio France Internationale

Os organizadores do Congresso Internacional de Edição de Genomas Humanos (Gene Edit Summit) condenaram nesta quinta-feira 29 a pesquisa do geneticista chinês He Jiankui, que anunciou durante o evento ter modificado os genes dos embriões de gêmeas para torná-las resistentes ao HIV, o vírus da AIDS.

O professor da Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China, em Shenzhen, cidade que faz fronteira com Hong Kong, alega ter eliminado um gene chamado CCR5 que impediria as meninas gêmeas de serem contaminadas pelo HIV em caso de contato com o vírus. A modificação foi feita antes dos embriões serem implantados no útero da mãe.

De acordo com os organizadores do congresso, a pesquisa é “irresponsável e preocupante”. Ainda segundo o texto do comunicado, mesmo se as modificações genéticas forem confirmadas, o procedimento desrespeita as regras internacionais.

Os organizadores pedem uma avaliação independente da pesquisa realizada por Jiankui, que afirmou na terça-feira 27 ter usado a tecnologia Crisp-Cas9 para modificar os embriões. A técnica, que permite “editar” a sequência do DNA e abre caminho para a cura de doenças pela terapia gênica, suscita interrogações sobre a ética e a segurança envolvidas.

A comunidade científica chinesa também condenou a pesquisa. A Universidade de Ciência e Tecnologia do sul da China, onde He Jiankui é professor, anunciou a abertura de uma investigação. Atualmente, Jiankui está de licença. A comissão sanitária da província de Guangdong, onde fica a universidade, informou a abertura de uma investigação nas instalações da universidade.

As revelações do jovem geneticista chinês He Jiankui na véspera da abertura do Congresso Internacional de Edição de Genomas Humanos (Gene Edit Summit), em Hong Kong, transformaram o evento acadêmico em uma grande coletiva de imprensa sobre o caso.

As declarações pegaram a comunidade acadêmica de surpresa, pois os resultados da pesquisa ainda não foram publicados. O que seria o roteiro tradicional para tornar público grandes desenvolvimentos científicos. Por enquanto, os dados não foram verificados de forma independente. Mesmo assim, ninguém parece duvidar que o experimento seja tecnicamente viável. Faltava apenas romper barreiras morais.

Nem os organizadores do congresso sabiam dessa pesquisa com embriões humanos. O professor deveria apresentar outro trabalho no evento, mas diante da reação internacional teve que dar explicações sobre o estudo feito praticamente em segredo.

Para muitos cientistas, He Jiankui foi longe demais. A alteração genética em laboratório de embriões humanos saudáveis, que depois foram implantados no útero de uma paciente, gerou uma onda de condenações e abriu o debate sobre a ética e a legalidade desse procedimento.

A tecnologia Crispr permite que cientistas modifiquem o DNA de um organismo, "recortando e colando” partes do material genético em pontos específicos do genoma. Experimentos vinham sendo feitos com animais, como ratos e macacos.

Técnica ainda gera questionamentos éticos

A possibilidade de edição genética é uma esperança para impedir doenças, mas é motivo de grande apreensão e incerteza sobre limites e consequências. Há muitas perguntas sem respostas. Os riscos são difíceis de prever. O DNA alterado pode provocar outras modificações no próprio organismo ou no de seus descendentes.

O congresso da Universidade de Hong Kong foi invadido por dezenas de jornalistas. He não respondeu as perguntas da mídia, mas foi sabatinado por seus colegas.

Os questionamentos foram muitos. O cientista foi criticado pela falta de transparência do projeto que começou há três anos e chamado de irresponsável. Alguns acusaram a falta de autorregulação da comunidade científica de ter criado o ambiente para que isso acontecesse. Outros acreditam que o mundo está pronto para o uso clínico responsável da técnica.

A China foi apontada como o terreno fértil para experimentos desse tipo, graças ao grande volume de investimento em pesquisa científica, ao capital humano disponível - profissionais com alta formação – somados a uma regulação opaca e a inexistência de lobby religioso, que em outros países condena qualquer pesquisa com embriões.

Robin-Lovell-Badge, geneticista do Francis Crick Institute, disse aos jornalistas presentes que não há nada que sugira que o colega chinês não fez o que diz, mas que He falhou em não tomar todas as precauções e se assegurar que o procedimento era legal. "Ele não considerou a abordagem mais consciente e cuidadosa”, acrescentou.

Texto e imagem reproduzidos do site: cartacapital.com.br